Wednesday, July 04, 2018

O mar torna o horizonte numa miragem / Margarida Andrade -Inauguração 05/07/2018

EXPOSIÇÃO Margarida Andrade / Vencedora Jovens Criadores  Walk & Talk 2017



Quando o mar é objecto,
o horizonte é paisagem

A ideia é actual e torna-se premissa pela urgência: a actividade turística nas ilhas do arquipélago tem vindo a aumentar exponencialmente, o que, numa relação causa-efeito, se traduz (não exclusivamente) na urbanização das suas paisagens. Esta invasão vem agitar, ainda que de forma gradual, a quietude e aparente estagnação que muitas vezes advém das próprias condições arquipelágica e periférica. É neste contexto, tão novo e intenso na ilha, que surge uma necessidade (e obrigação) de rever as suas consequências, tanto positivas como negativas – especialmente em relação a uma objectificação das paisagens açorianas por parte de um mercado turístico em crescimento. Para além de todas as consequências que podemos prever, como os problemas ambientais, alterações ecológicas, ou movimentos de gentrificação, Margarida Andrade foca-se numa questão que, embora já seja omnipresente noutros discursos da turistificação, por vezes é secundarizada quando abordada no contexto açoriano: a perda de uma identidade (neste caso açoriana), das suas pequenas idiossincrasias, das suas dinâmicas, da sua própria relação com o espaço que habita (e que habita também nela). Não partindo da (fácil) condenação destas alterações, mas sim de um questionamento deste crescimento repentino e dos seus possíveis (e variados) resultados, Margarida apropria-se da forma reconhecível do ilhéu de Vila Franca, explorando o esbatimento de um contorno que se perde pela repetição. O ilhéu, apesar da sua pequena dimensão e da distância que o separa da ilha de S. Miguel, é uma das maiores atracções turísticas micaelenses. (O ilhéu é também aquele que habita a ilha).

É neste impasse que o trabalho de Margarida Andrade se desenvolve. Ao passar para o objecto escultórico (embora a sua área de eleição seja a pintura), a artista tenta firmar os contornos do ilhéu, que, embora identificáveis, se vão esbatendo, perdendo a identidade e a relação com quem o olha. Ao objectificar aquele espaço (quase da mesma forma que é objecto em publicidade turística), começam-se a perder os limites reconhecíveis, as particularidades específicas. É na apropriação turística da paisagem que esta começa a perder a fisicalidade e a contextualidade, desligando-se da cultura e da humanidade, e a existir numa forma etérea - apenas uma idealização, projectada atractiva. Uma miragem.

Marta Espiridião

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